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Ecofeminismo: perspectivas para um mundo sustentável - pelas mulheres e pelos animais

Por Luíza Benamor


Os caminhos que escolhemos seguir acarretam impactos que, muitas vezes, mal somos capazes de dimensionar. Diante do intrincado sistema que nos construiu e que nós também construímos, cada decisão carrega consigo um peso histórico e político. Nossa sociedade está baseada em símbolos e certas maneiras de consumo que sustentam a estrutura econômica e social. Muito antes da nossa chegada nesse mundo, ele já tinha seus alicerces, fixados em um modo de produção e de reprodução da vida humana que não é sustentável. Quando falo em sustentabilidade, busco abarcar não só o termo ecológico como também uma visão mais social - uma sustentabilidade que preze pela reprodução da vida de todos, de maneira justa e igual.


Por mais que a estrutura produtiva esteja há tempos consolidada, quem alimenta o sistema somos nós. "Essa geração precisa fazer um grande esforço para que a próxima possa ter um avanço suave. Pois eu concordo com você que nada será alcançado por nós. (...) A alma humana, parece-me, se reorienta de vez em quando. Agora ela está fazendo isso". As palavras ditas por Virginia Woolf, há quase 100 anos atrás, carregam consigo o peso de uma atitude simples, mas significativa: a renúncia. Quando enxergamos que a vida de outros seres merecem respeito e renunciamos a carne no nosso prato de comida, fazemos uma escolha pelo futuro. Quando percebemos que a opressão, o abandono e a objetificação estão entrelaçados ao modo de produção, podemos dar um passo mais longe. Assim, será possível ver como essa violência, escondida nas palavras, nos hábitos e na mesa de jantar, atinge as mulheres, os animais e o meio-ambiente.


Não é novidade que as ações exploratórias do homem têm, há anos, esgotado o planeta Terra. Estamos chegando a níveis alarmantes de consumo, guiado por um modelo de crescimento econômico capitalista que não oferece mais perspectivas futuras. No cerne desse sistema, encontra-se a agropecuária. Analisando as estatísticas, torna-se evidente como a criação de animais para consumo é responsável por grande parte dos impactos ambientais. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a produção de Carne e de Laticínios é responsável pela geração de 14,5% da emissão global de gases de efeito estufa. No célebre documentário “Cowspiracy", descobrimos que um hambúrguer de 114 gramas requer quase 2,5 mil litros de água para ser produzido. Ao desperdício de água e emissão de GEEs, somam-se os desmatamentos, poluição, erosão de terras e a consequente ameaça da biodiversidade.


Em meio à calamidade ambiental, ainda podemos fazer certas escolhas. O Veganismo é uma ética, um modo de viver, que busca excluir qualquer tipo de exploração animal; assim, abolindo o consumo de todo produto que venha de seres vivos - seja comida, roupas, cosméticos, dentre outros. De acordo com o “Intergovernmental Panel on Climate Change” (IPCC), a adoção do Veganismo poderia economizar a emissão de 8 bilhões de toneladas de CO2 por ano até 2050, se comparado com o cenário atual. Além do impacto ambiental positivo, outra base moral igualmente relevante para o Veganismo é a compreensão de que os animais são seres que merecem respeito e liberdade. Causar o sofrimento desnecessário a outro ser, mesmo que ele não seja da nossa espécie, é um ato cruel e impiedoso causado sistematicamente pelos seres humanos. A exploração por puro capricho é uma atitude descabível para quem se considera a espécie mais evoluída do planeta Terra. Comer é, portanto, um ato político, carregado de implicações ecológicas e sociais.


Dentre as camadas que compõem esse consumo, há ainda a relação com a opressão patriarcal. À primeira vista, a relação entre a exploração animal e feminina não é óbvia - e pode parecer, para um observador pioneiro nesses assuntos, absurda. A existência do machismo, que configura relações de poder dentro das quais os homens estão acima das mulheres, são fatores reconhecidos pela mídia mainstream. No entanto, o feminismo, movimento social que luta contra o patriarcado, buscando o estabelecimento de relações de equidade entre homens e mulheres, é composto por diversas vertentes. Estas são baseadas em preceitos e teorias que objetivam explicar porquê e como ocorre essa opressão, trazendo alternativas para um futuro mais igualitário.


O feminismo propagado nos meios tradicionais é, muitas vezes, aquele de perspectiva liberal, que apela para ações individuais, sem incitar a luta contra a estrutura social que causa o machismo. Nesse sentido, dentre as ideias que subvertem as bases do patriarcado, surge o ecofeminismo: uma vertente que conecta o consumo de carne, a exploração animal, o imperialismo social e a opressão patriarcal.


Na obra “A Política Sexual da Carne”, considerada a “bíblia” da comunidade vegana, Carol J. Adams explica como a hierarquia no consumo de carne reforça as hierarquias de raça, classe e sexo. A proteína animal sempre foi mais cara e escassa do que a proteína vegetal, devido ao seu processo produtivo, e, historicamente, os homens tiveram preferência no seu consumo. Logo, a carne sempre foi mal distribuída e consumida de maneira desigual entre os sexos. Ao longo dos anos, esse alimento passou a ser associado com a masculinidade e força. No final do século XX, ainda era propagada a ideia de que não se podia ser forte, sustentar uma família e ser um “homem de verdade” sem consumir carne.


Em contrapartida, em economias essencialmente agrícolas, há uma maior chance de igualdade, uma vez que as mulheres têm sido as coletoras dos alimentos vegetais - os recursos básicos para esse tipo de sociedade. Como todos eram dependentes das atividades femininas, mesmo com a pressão do patriarcado, elas conquistavam certa autossuficiência, sendo responsáveis pela distribuição do alimento. Dessa forma, quando as mulheres proveem a comida e, logo, a alimentação é majoritariamente composta por plantas, não ocorre a discriminação proveniente da distribuição do alimento básico.


Por conseguinte, com a evolução da sociedade capitalista e a sistematização da produção e consumo de carne e derivados, a discriminação alimentícia ganhou grandes dimensões. No desenvolvimento material e histórico, o papel masculino de provedor e distribuidor do alimento animal foi transposto para o papel masculino de consumidor desta. Portanto, o domínio masculino tem a carne como símbolo.


Nesse sentido, estão colocadas as bases do ecofeminismo, compreendendo a relação entre a dominação masculina e a exploração animal, que alcança seu estágio mais alto no consumo de um animal morto - a carne. De uma maneira geral, o ecofeminismo abrange um amplo espectro. Ao incorporar à questão feminina o destino dos animais, podemos compreender implicações profundas:

(i) a relação entre o imperialismo e o consumo de carne na imposição de uma dieta “branca” à cultura agrícola de países africanos;

(ii) os impactos ambientais do sistema pecuário;

(iii) o simbolismo da carne para o domínio masculino e como ele surgiu por meio da desigualdade distributiva;

(iv) o classicismo e o machismo presente na definição do que é uma dieta adequada e saudável quando se desconsidera a opção vegetal, ligada a autonomia feminina e a economias não-ocidentais, uma opção saudável.


A luta por uma sociedade mais justa, para todos os gêneros, etnias, classes e seres, assume formas e atitudes diversas. Mas a renúncia ao consumo exploratório e patriarcal por meio de escolhas mais responsáveis em relação aos nossos hábitos alimentares é um passo relevante nessa direção. Esse texto foi uma breve introdução às camadas profundas do veganismo e do ecofeminismo, perspectivas de um mundo certamente diferente. Por mais complexo e complicado que um modo de vida guiado pela ética ecofeminista possa parecer, sempre há esperança de mudança, cada indivíduo tem seu próprio tempo e toda contribuição é importante. Como disse a poeta Fran Winant,


“coma arroz, tenha fé nas mulheres

o que não sei agora

ainda posso aprender.”


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