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em meio à campanha do setembro amarelo, convidamos a psicóloga letícia perfeito, criadora do instagram oficina de insights, para discutir o impacto da pandemia na saúde mental feminina. ouça nosso podcast e saiba mais!

Saúde mental no isolamentoFEA Social
00:00 / 12:17

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No mês do orgulho LGBT+, a FEA Social decidiu trazer visibilidade para as formas de amor invisíveis. Confira o relato emocionante da nossa membra sobre autoconhecimento, descobrimento e aceitação como pessoa LGBT no podcast abaixo e conheça a história inspiradora de juno, trans não-binária e bissexual.

Visibilidade LGBTFEA Social
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RELATO DE

JUNO CARRANO

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Meu nome é Juno Carrano da Silva e tenho 24 anos de idade. Cursei o ensino médio na Escola Técnica Estadual de São Paulo (ETESP); cogitei estudar música na UNESP (bacharelado em música com habilitação em violino), mas desisti; cursei dois anos de história na USP e novamente desisti; atualmente estudo gastronomia na UFBA e trabalho como cozinheira.

[FEA Social] Em que momento você se identificou como pessoa “trans” e “bissexual”?

 

[Juno] Não sei se é possível definir um momento, foi – e ainda é – um processo. 

     Comecei a me relacionar afetivo-sexualmente entre os 12 e 13 anos. Até então não me interessava por ninguém, mas por cobranças de colegas acabei seguindo o fluxo. Acredito que nessa época sentimos bastante pressão no que tange o exercício da sexualidade, né? Me relacionei com algumas mulheres, mas ao completar 14 anos descobri que minha expressão de gênero seria um problema. Já não sentia mais interesse no olhar das pessoas, e minhas inúmeras tentativas de estabelecer algum tipo de relação foram todas mal sucedidas. 

     Percebi então que minha feminilidade, mal vista no meio heterossexual, seria bem recebida no meio homo e bissexual, e assim passei a me relacionar com homens. Não me ocorreu, a época, que existem diversas maneiras de ser homem e mulher, que nossa expressão de gênero não deve se tornar um limite ou barreira. E por acreditar que nenhuma mulher sequer olharia para mim, acabei reprimindo o meu desejo. Dessa forma, até os 20 anos me relacionei exclusivamente com homens.  

    Entre os 16 e 17 anos comecei a sentir muito desconforto ao me declarar homem. Deixei meus cabelos crescerem pela primeira vez, passei a usar saias, brincos, batons, esmaltes e todo tipo de maquiagem, todo tipo de símbolo ligado a feminilidade. Pensava no meu corpo e na potência do mesmo, nas inúmeras possibilidades. E se eu começasse um tratamento hormonal? Como seria? Foi um processo tão longo pra aceitar meus pelos, devo me depilar? Fazer minha barba todos os dias? Redução do pomo de adão? Mamoplastia de aumento? Redesignação vocal?

     Com todos esses questionamentos passei a me aproximar de movimentos trans, estudar mais sobre gênero, sexo e sexualidade, e participar de coletivos e eventos diversos. Ao me familiarizar com o conceito de transgeneridade me senti bastante contemplada, porém ainda desconfortável. Foi então que ao conhecer algumas pessoas trans não-binárias pude expandir minha visão e entender melhor tudo o que se passava aqui dentro. Tive a sorte de ter um grande amigo ao meu lado nesse período, passando pelos mesmos processos. 

     A partir desse momento passei a me identificar como uma pessoa trans não binária. 

     Aí se tornou difícil fazer uma leitura das pessoas, no sentido afetivo-sexual. Eu queria que me olhassem sem juízo de valor, que me perguntassem quais meus pronomes de preferência e por meio do diálogo soubessem da minha identidade. Sendo assim, como poderia eu presumir a identidade de outra pessoa sem ao menos dialogar? Revisitei então minha sexualidade para entender os motivos da negação de tantos desejos e me descobri bissexual. Não me interesso por masculinidades e feminilidades (ou não me interesso apenas por masculinidades e feminilidades), mas por pessoas, independente de sexo, gênero e/ou sexualidade. 

     Ainda hoje continuo com diversos questionamentos e sigo me transformando; tenho consciência de que não se trata de um processo com início, meio e fim, mas me conforta a (in)certeza de saber quem eu sou. 

[FEA Social] Como foi a aceitação da sua família em relação a isso?

 

[Juno] Felizmente tenho uma família bastante compreensiva nesse sentido. 

     Ao sair do armário pela primeira vez (aos 16 anos) discuti sobre minha sexualidade com meus pais e meu irmão. Na verdade, meu irmão já estava a par de tudo, ele foi e ainda hoje é um grande companheiro pra mim. Em relação aos meus pais, foi um susto pra eles, não souberam lidar com a notícia, mas com o passar do tempo tudo se ajeitou. 

     Depois, com 20 anos, saí do armário novamente. Dessa vez discuti com meus pais sobre sexo e gênero. Até hoje tentam digerir a conversa que tivemos. Pensei que já estariam calejados, mas foi diferente. Já me tratam pelo nome que escolhi, mas costumam errar, preferem o que escolheram. Às vezes parece que se recusam a aceitar meus pronomes. É uma situação bem desgastante. Mas acima de tudo tenho certeza que me respeitam. 

Tenho também uma ótima relação com meus primos, alguns fizeram e ainda fazem parte da minha trajetória, sempre me oferecendo suporte e apoio.

 

[FEA Social] Tem alguma história sua na comunidade LGBTQI+ que você gostaria de compartilhar?

 

[Juno] Em 2017 me mudei pra Salvador para cursar gastronomia na UFBA. Esse foi, na verdade, mais um dos motivos. Além de querer sair de São Paulo, queria ter a chance de recomeçar. Essa mudança foi muito importante pra minha transição. E por mais que estivesse sempre com meu irmão, na maioria das vezes me sentia bastante deslocada. 

     No dia 5 de maio de 2017 Thadeu Nascimento (Têu), um homem trans, foi encontrado morto no bairro de São Cristóvão, em Salvador. Reivindicando justiça pelo assassinato, Rosângela Silva (mãe de Têu) e o grupo Famílias pela Diversidade organizaram um ato no dia 12 de maio, no Rio Vermelho. 

     Não conhecia quase ninguém, mas decidi comparecer ao ato. Conheci algumas pessoas no percurso e resolvi seguir até o fim, no Largo da Mariquita. Lá algumas pessoas, dentre elas Rosângela, apresentaram diversas falas emocionantes, foi incrível. E então decidiram tirar uma foto com todas as pessoas trans presentes para marcar o fim do ato. 

     Eu não sabia o que fazer. Tenho consciência da leitura social que recebo da maioria das pessoas, e sinceramente até hoje em alguns contextos isso me trava, imagine em uma situação delicada como essa? A última coisa que eu queria era causar. Então quando estavam prestes a tirar a foto uma das mulheres presentes no grupo me olhou e me chamou. Perguntei se era comigo e ela confirmou.

     Foi algo simples, mas bastante significativo pra mim. A gente sempre fica feliz com reconhecimento, né? E também serviu de lição, pra que eu não tenha vergonha ou medo de me posicionar, me colocar e me assumir. 

     Outros momentos que ficaram marcados pra mim foram os dois últimos natais que passei aqui, o penúltimo no Casarão da Diversidade e o último na Casa Aurora (uma acolhida pra pessoas trans), ambos voltados para pessoas trans. Realizaram karaokês, discotecagens, performances e organizaram brechós e ceias maravilhosas.  

     No mais, gostaria de agradecer pela oportunidade de compartilhar algumas de minhas vivências e, de alguma forma, contribuir com o mês de orgulho LGBT. 

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